Abandono a praia fazendo contas ao sol. Resta uma hora
de luz que confirma o frio que já se faz sentir. Sentei-me na areia fresca, sem
me descalçar, cruzando as pernas e apoiando as costas no muro do paredão.
Terminei o Al-Khaïma do Jorge Fallorca, sorvido em dois dias, como se também
ocasional viajante ansiasse mais pelo regresso do que perder-me num sem número
de descobertas. Terminado o livro, enrolei um cigarro sem os aditivos oriundos
do norte de África e contemplei finalmente o que me rodeava. As praias no
inverno parecem sempre iguais. No mar aparentemente inofensivo, grupos de
rapazes e raparigas recebiam as primeiras aulas de surf, enquanto pela areia,
se pontificavam ao acaso poucas pessoas, como eu, a ler, a cortar o saco imaginário
mas asfixiante da normalidade dos dias que enfiamos na cabeça e do qual no
esquecemos. Tinha o tempo contado, impedindo-me de demorar o suficiente. Uma
hora corre veloz, não lhe detenho o pulsar; o tempo esfuma-se, principalmente
quando se lê. Caminho agora os poucos metros do paredão que me conduzem ao
túnel que atravessa a marginal, onde estacionei o corsita. Tenho ainda tempo para passar pelas esplanadas abertas.
Raparigas enfiadas nos fatos de água, cabelos molhados, sentam-se nas cadeiras
para se trocarem. Os rostos tisnados, olhos brilhantes. Um aroma adocicado que
não consigo identificar mas que me recorda o verão espraia-se delas, sinto-o ao
passar-lhes, feito Al Berto de óculos escuros a esconder paixões imaginárias.
Que hora tão curta. Que poucos metros de paredão me restam. Atravessam-se
alguns casais, todos jovens, manequins das lojas Salsa, prontos a serem
fotografados. Entendo finalmente que não são as horas a correrem rápido; sou
todo eu um alguém cuja noção do tempo se tornou irrelevante. Que idade tenho
afinal? É inverno. As praias tornam-nos anónimos, isentos de nome, mas não
incólumes ao peso do que vivemos. Já tive momentos piores. Dias e noites em que
nem sequer saía de casa. Hoje já caminho, sem tontura ou pânico inexplicáveis;
facturas a cobrarem mais do que a alma está habituada a pagar. Revigorado,
permito-me receber a última luz do sol, tentando em vão não navegar por recordações
que certos locais guardam em si, e que já julgados esquecidos, nos espancam
violentamente como se novamente vividos no hoje e agora. Enquanto atravesso o
túnel escuro, debaixo da marginal, essas imagens projectam-se enganando o olhar
que nada vê na súbita escuridão. E enumero as recordações como tópicos; um
abraço a alguém que veste o mesmo fato de água, o mesmo cheiro indecifrável
colado na pele, a long board segura pela janela do corsita por não caber nele, alguns ásanas na areia como aquecimento
antes do mar, massagens nos ombros, beijos molhados e furtivos, olhares densos,
cúmplices de noites mal dormidas, conversas, partilhas, tudo tão efémero,
assustadoramente efémero. Passam por mim pessoas com a mesma velocidade de
ponta que o tempo atinge enquanto leio, e tanto baralhado como irreconhecível
descubro-me numa levitação mágica, um balão inchado de hélio disparado pela
nortada. Não gosto de escrever desta forma, onde pouca ficção possa encontrar
um nicho nestes textos confessionais, e tornar tudo menos doloroso e ofensivo. Não
existe o deslumbre de tornar aprazível as marcas vincadas nesta procura humana
de alguma serenidade. A que todos temos direito. Os últimos esforços, porque o
tempo acelera impiedoso, é encontrar a quietude, domesticar a respiração,
explorar os limites do corpo. O yogui que anseia chegar aos quarenta anos na
melhor forma física possível. E se se regressar às origens, sem grande fé ou
religiosidade, acreditar que Krishna nos dissipe estes recantos da memória onde
encalhamos a cada passo. Esquece-te mente. Hoje é inverno e esgotámos a hora.
Regresso, ligo o carro, preparo o disco dos Shpongle porque já sei que o Martinicas me pedirá para ouvir a música
que lhe ‘faz cócegas na barriga’. E arranco como se abandonasse uma parte de
mim, ao encontro de uma outra. Fossem as imagens mais reais e juraria-me
incapaz de distinguir o passado do presente. Respiro. Acelero, enquanto escolho
a faixa repetida à exaustão, cujo título ironicamente dita: “My head feels like
a frisbee”.