Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Apontamentos #67

Abandono a praia fazendo contas ao sol. Resta uma hora de luz que confirma o frio que já se faz sentir. Sentei-me na areia fresca, sem me descalçar, cruzando as pernas e apoiando as costas no muro do paredão. Terminei o Al-Khaïma do Jorge Fallorca, sorvido em dois dias, como se também ocasional viajante ansiasse mais pelo regresso do que perder-me num sem número de descobertas. Terminado o livro, enrolei um cigarro sem os aditivos oriundos do norte de África e contemplei finalmente o que me rodeava. As praias no inverno parecem sempre iguais. No mar aparentemente inofensivo, grupos de rapazes e raparigas recebiam as primeiras aulas de surf, enquanto pela areia, se pontificavam ao acaso poucas pessoas, como eu, a ler, a cortar o saco imaginário mas asfixiante da normalidade dos dias que enfiamos na cabeça e do qual no esquecemos. Tinha o tempo contado, impedindo-me de demorar o suficiente. Uma hora corre veloz, não lhe detenho o pulsar; o tempo esfuma-se, principalmente quando se lê. Caminho agora os poucos metros do paredão que me conduzem ao túnel que atravessa a marginal, onde estacionei o corsita. Tenho ainda tempo para passar pelas esplanadas abertas. Raparigas enfiadas nos fatos de água, cabelos molhados, sentam-se nas cadeiras para se trocarem. Os rostos tisnados, olhos brilhantes. Um aroma adocicado que não consigo identificar mas que me recorda o verão espraia-se delas, sinto-o ao passar-lhes, feito Al Berto de óculos escuros a esconder paixões imaginárias. Que hora tão curta. Que poucos metros de paredão me restam. Atravessam-se alguns casais, todos jovens, manequins das lojas Salsa, prontos a serem fotografados. Entendo finalmente que não são as horas a correrem rápido; sou todo eu um alguém cuja noção do tempo se tornou irrelevante. Que idade tenho afinal? É inverno. As praias tornam-nos anónimos, isentos de nome, mas não incólumes ao peso do que vivemos. Já tive momentos piores. Dias e noites em que nem sequer saía de casa. Hoje já caminho, sem tontura ou pânico inexplicáveis; facturas a cobrarem mais do que a alma está habituada a pagar. Revigorado, permito-me receber a última luz do sol, tentando em vão não navegar por recordações que certos locais guardam em si, e que já julgados esquecidos, nos espancam violentamente como se novamente vividos no hoje e agora. Enquanto atravesso o túnel escuro, debaixo da marginal, essas imagens projectam-se enganando o olhar que nada vê na súbita escuridão. E enumero as recordações como tópicos; um abraço a alguém que veste o mesmo fato de água, o mesmo cheiro indecifrável colado na pele, a long board segura pela janela do corsita por não caber nele, alguns ásanas na areia como aquecimento antes do mar, massagens nos ombros, beijos molhados e furtivos, olhares densos, cúmplices de noites mal dormidas, conversas, partilhas, tudo tão efémero, assustadoramente efémero. Passam por mim pessoas com a mesma velocidade de ponta que o tempo atinge enquanto leio, e tanto baralhado como irreconhecível descubro-me numa levitação mágica, um balão inchado de hélio disparado pela nortada. Não gosto de escrever desta forma, onde pouca ficção possa encontrar um nicho nestes textos confessionais, e tornar tudo menos doloroso e ofensivo. Não existe o deslumbre de tornar aprazível as marcas vincadas nesta procura humana de alguma serenidade. A que todos temos direito. Os últimos esforços, porque o tempo acelera impiedoso, é encontrar a quietude, domesticar a respiração, explorar os limites do corpo. O yogui que anseia chegar aos quarenta anos na melhor forma física possível. E se se regressar às origens, sem grande fé ou religiosidade, acreditar que Krishna nos dissipe estes recantos da memória onde encalhamos a cada passo. Esquece-te mente. Hoje é inverno e esgotámos a hora. Regresso, ligo o carro, preparo o disco dos Shpongle porque já sei que o Martinicas me pedirá para ouvir a música que lhe ‘faz cócegas na barriga’. E arranco como se abandonasse uma parte de mim, ao encontro de uma outra. Fossem as imagens mais reais e juraria-me incapaz de distinguir o passado do presente. Respiro. Acelero, enquanto escolho a faixa repetida à exaustão, cujo título ironicamente dita: “My head feels like a frisbee”.